segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido.
As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.
Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças,
sempre querendo, querendo.
Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.
Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.
Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.
No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança
do hálito quente do outro. A voz, o viço.
Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
expulsar de mim essa Nossa senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça.
E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda.
E mais do que nunca tive inveja.
Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta
nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado.
E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora.
A mulher que engravida porque gosta de criança.
Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada,

mãe, ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido,
e ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos.
Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo.
Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.
Clarice diz, que sua função é cuidar do mundo.
E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,
não tenho bons modos nem berço.
Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.
O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?
Eu, cuja única função é lavar palavra suja,
nesse fim de século sem certeza?
Eu quero que a solidão me esqueça.

(viviane mosé)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

II Sarau Literário via Twitter


Em comemoração a Proclamação da República do Brasil, será realizado o II Sarau Literário via Twitter. Venha participar, compartilhe seus textos conosco, e leia os dos outros. Cada RT é um aplauso!
 
NÃO HÁ REGRAS, mas algumas sugestões são interessantes:

    ♣ Cuidado para não ser bloqueado durante o evento, há um limite de tweets por dia.
    ♣Não publique textos de terceiros: nós queremos ler a sua obra (não precisa ser inédita);
    ♣ Não divulgue blogs, sites, ou similares durante o evento. Entenda isso como uma conversa durante uma declamação: não é o momento adequado para isso;
    ♣ Não publique outra coisa que não seja textos literários, RTs e comentários;
    ♣ Quanto aos RTs, sugerimos que usem a ferramenta do twitter para isso, e não da forma manual: "RT @renanrop..."
    ♣ E por favor, divulgue e participe, o cartaz acima pode ser publicado em qualquer blog, site, ou twitter, é só copiar a imagem. O s@rau não é meu, é de todos os twitteiros que vivem a Literatura no Twitter dia a dia, e para aqueles que querem entrar nesse mundo;
    ♣ O mais importante: Não se esqueça da hashtag: #SarauBrasil


Gostou da ideia? Vai participar? Então leia a página lista de presença e siga as instruções.

terça-feira, 18 de outubro de 2011






chova, chuva!
percebe-te que
já é primavera

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Placenta

"Olhe para as crianças no parque, elas estão felizes;
Agora estão brincando, mas logo irão crescer...
E terão que aprender a sofrer, ou seja,
Aprender a viver."

domingo, 18 de setembro de 2011

Minha vida sem mim

Tenho andado distraída, impaciente, e um tanto quanto infeliz. Como naqueles dias em que eu não caibo em lugar nenhum. Como naqueles dias em que algo queima dentro de mim, incessantemente, causando uma angústia enorme que parece não ter fim. Ontem foi mais um desses dias. 
Ontem senti como se não fosse mais sobreviver ou suportar. Foi então que, não sei ao certo como isso se deu, comecei a vizualizar toda a minha vida sem a minha presença. Minha vida sem mim. E chorei, e sofri, e doeu, muito.
Doeu muito ver todas as pessoas que eu amo falando de mim como se eu não mais existisse. Doeu muito ir até o trabalho e escutar a conversa dos meus colegas sobre como eu fui, tão extrovertida para conseguir esconder uma introversão maior ainda. Doeu muito olhar meus alunos de longe perguntando porque eu não tinha ido dar aula aquele dia. Doeu muito ver outra pessoa na posição de oradora na minha formatura explicando o motivo de eu não estar lá. Doeu muito perceber que eu fiquei muito, muito triste em não estar participando de momentos dos quais, às vezes, eu reclamo tanto.
Doeu mais ainda sentir o sofrimento da minha família. Lembrar de com quais palavras eu deixei cada um. As palavras frias que tenho falado ultimamente, um tanto indecisas, um tanto distantes. Pensei em como seria para minha mãe ver a única filha se esvaindo, assim. Comecei a pensar no que fariam com meus livros e filmes, se os guardariam, se não. Então imaginei como seria quando lessem todas as cartinhas que eu guardo em uma caixinha, as cartinhas e bilhetes da adolescência. 
E foi num impulso que saí dessa imersão e corri para a minha caixa de cartinhas. E li todas, devorando uma a uma, lembrando de cada um daqueles momentos, relembrando cada aventura. Então percebi como eu já fui uma pessoa menos complicada, mais alegre, menos dura. E tive uma vontade enorme de ser alguém melhor agora, com tudo que sei e antes não sabia, mesmo com a ausência de todas as pessoas que perdi nessa caminhada, e com todas as que conquistei e tenho em minha vida agora. Viver o aqui, na minha vida, bem assim. Pois, se tem algo que eu decidi que não quero, é viver minha vida sem mim.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

I never learned how to stay

Ah, não. Não me venha com esse papo de que mesmo pássaro que foi feito pra voar por aí quer ter um lugar pra ficar. Não quer não. Estamos sempre em busca de locais provisórios, desses que preenchem o vazio por algum tempo e logo ficam chatos.
E o tempo de estadia em um lugar é sempre curto. Já ouviu falar que os lares são, na verdade, as pessoas que moram neles? Então, por isso temos que mudar de lar antes de nos moldar e afeiçoar a eles. Estar em um lugar significa seguir suas regras e padrões, se anular e compartilhar sempre tudo e qualquer coisa que possamos vir a pensar ou sentir, e isso nos cansa, muito.
Pássaros assim, gostam da brisa da manhã no rosto e nas penas, gostam da mudança de estações e com ela a mudança de hábitos, de lugares. Pássaros assim não nasceram pra serem achados; eu não nasci pra ser achada.
Faz assim, me deixa sair. Eu, bem assim, com esse meu jeito bicho do mato que se esconde atrás dos arbustos, sou um pássaro arredio que some na imensidão do céu a partir do menor sinal de procura. Me deixa sair, porque eu não consigo mais ficar.