- Seus olhos são lindos, sabia?
Eu disse. Não queria ter dito esse "sabia", nem ter que encerrar com ponto de interrogação. Ensaiei por muito tempo, mas assim o disse.
Então ouvi, de um rosto colado a meu ombro esquerdo:
- Nham!
- Enquanto estava longe, foi só neles, nos seus olhos, que pensei.
Então o abraço ficou mais forte, e o vento soprou mais leve naquele lugar só nosso, de onde vemos as luzes sempre tão lindas à noite.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
I S@rau Literário via Twitter
Vai ser ótimo! Vamos todos participar!

Algumas sugestões para quem for participar, não há regras, porque o Twitter é democrático demais para isso (texto de Renan):
- Não publique textos de terceiros: nós queremos ler sua obra, não do Caio Fernando Abreu ou do Millôr (a menos que este participe também).
- Não divulgue blogs, sites, ou similares. Entenda isso como uma conversa durante uma declamação: não é o momento adequado para isso.
- Não publique outra coisa que não sejam textos literários, RTs e comentários durante essas duas horas: já que você vai no sarau, está lá, acredito que os outros assuntos possam ser adiados.
- E por favor, divulgue e participe, o cartaz acima pode ser publicado em qualquer blog, é só copiar a imagem. O s@rau não é meu, nem do Renan, nem da Giselle, é nosso.
- Não se esqueça da data, horário e o principal a hashtag: #sarauletras365
Dúvidas, críticas ou sugestões:
rop.renan@hotmail.com ou @renanrop
dani.s.freitas@gmail.com ou @Daniele_SF
gisellezamboni@uol.com.br ou @gisellezamboni
rop.renan@hotmail.com ou @renanrop
dani.s.freitas@gmail.com ou @Daniele_SF
gisellezamboni@uol.com.br ou @gisellezamboni
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Estive sumida, desaparecida, desencontrada. Estive trancada em mim, para mim, sobre mim, sobre tudo, sobretudo. Andei, observei, aprendi. Aprendi que A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. E que, Quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal... Quando se vê, já terminou o ano... Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado...(*)
Então, após dificilmente digerir tudo isso fui subitamente atropelada por uma vontade louca de viver de outro jeito. Com menos amarras, menos freios, mais planos para o presente. Mais choro, mais riso. Mais, muito mais. Enfretar os perigos com as mãos geladas, o estômago embrulhado e a cabeça a mil. Atender o telefone mesmo quando acho que a notícia não é lá muito a que espero, e após tal confirmação, me alegrar muito por ter atendido e por ter sido produtivo. Viver assim, sem tragicizar antes de que tenha acontecido. Viver numa espécie de "Let it be" enérgica, sentimental, e com valor.
(*) O tempo, Mário Quintana.
Então, após dificilmente digerir tudo isso fui subitamente atropelada por uma vontade louca de viver de outro jeito. Com menos amarras, menos freios, mais planos para o presente. Mais choro, mais riso. Mais, muito mais. Enfretar os perigos com as mãos geladas, o estômago embrulhado e a cabeça a mil. Atender o telefone mesmo quando acho que a notícia não é lá muito a que espero, e após tal confirmação, me alegrar muito por ter atendido e por ter sido produtivo. Viver assim, sem tragicizar antes de que tenha acontecido. Viver numa espécie de "Let it be" enérgica, sentimental, e com valor.
(*) O tempo, Mário Quintana.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
sábado, 2 de abril de 2011
Sobre eu e Nick Belane
Ontem o dia amanheceu estranho. Parecia fresco, mas, só parecia. Abri os olhos mas não conseguia levantar. Passara a maior parte da noite acordada, afundada em tarefas e tarefas intermináveis. Aliás, essa já era uma constante. Saí de casa, atrasada. Sabia que ia ser meu último dia junto ao Nick Belane [ao menos dessa vez], pois, só umas 50 páginas de leitura me separavam da última.
Respirei fundo, entrei no ônibus, abri o livro. Nick Belane - o melhor detetive de LA. Tão humano, tão sensível, tão idiota, tão pensante, tão eu. A não ser em relação ao vício com a bebida e as corridas de cavalo, tão eu.
Gosto da paisagem da universidade em que estudo. Gosto mesmo. Gosto da minha cidade natal, também. Mas, tem dias que simplesmente eu não caibo aqui. E esses dias têm sido cada vez mais frequentes. Cada pessoa que passou por mim ontem me irritou profundamente. Tinha um grupinho de estudantes parado no meu caminho. Ou eu pedia pra passar, ou passava em baixo do braço do cara. E foi isso que fiz - passei embaixo do braço dele, e, levei uma pancada na cabeça. Por que ele tinha que abaixar o braço aquela hora? Parecia até implicância.
Entrei na sala. Lotada. Odeio essas disciplinas que vários cursos são obrigados a fazer e que deixam a sala misturada, uma bagunça. Uma das poucas pessoas com quem eu me importo naquele curso tinha guardado lugar pra mim.
- Bethânia, você tá bem?
- Respirar dói - disse com os olhos quase prontos para expelir lágrimas.
Passou. Sempre passa. E, sempre volta.
Fui trabalhar após o almoço. Calor, sono, e um ônibus lotado, com um motorista que não sabe pisar no freio gradativamente. Isso me separava do Nick Belane e suas peripécias de detetive. O pior detetive de LA.
Na volta do trabalho é que tive meus últimos momentos a sós com Nick. E, tinha uma menina felizinha sentada do meu lado. Desceu numa parada perto de um cursinho pré-vestibular da elite da cidade. Era daquelas que os pais pagavam horrores para que ela pudesse entrar na faculdade. Mal ela não sabia o que a esperava por lá. Sorrisos falsos, olhares discriminadores, pessoas completamente interessadas em se aproveitar de você e sua atividade intelectual.
Cheguei na última página. Fiquei triste. Muito triste. Nick morre no final. Você morre no final. Eu morro no final. Os finais são assim. Tristeza seguida de um vazio agudo, e uma sensação de que ando assim, cheia de tudo. As pessoas não entendem o que sinto quando acabo de ler um livro com o qual me envolvi emocionalmente. A menina felizinha do cursinho não entende. Você não entende.
Com o Nick não tive medo de ver um lado que às vezes tento esconder de mim. Ele é encanto e desencanto. E é por essas e outras que sentirei tanta falta dele.
"Do lado de fora, atravessei decidido a poluição. Tinha os olhos azuis, os sapatos velhos e ninguém me amava. Mas tinha coisas a fazer. Eu era Nick Belane, detetive particular."
Respirei fundo, entrei no ônibus, abri o livro. Nick Belane - o melhor detetive de LA. Tão humano, tão sensível, tão idiota, tão pensante, tão eu. A não ser em relação ao vício com a bebida e as corridas de cavalo, tão eu.
Gosto da paisagem da universidade em que estudo. Gosto mesmo. Gosto da minha cidade natal, também. Mas, tem dias que simplesmente eu não caibo aqui. E esses dias têm sido cada vez mais frequentes. Cada pessoa que passou por mim ontem me irritou profundamente. Tinha um grupinho de estudantes parado no meu caminho. Ou eu pedia pra passar, ou passava em baixo do braço do cara. E foi isso que fiz - passei embaixo do braço dele, e, levei uma pancada na cabeça. Por que ele tinha que abaixar o braço aquela hora? Parecia até implicância.
Entrei na sala. Lotada. Odeio essas disciplinas que vários cursos são obrigados a fazer e que deixam a sala misturada, uma bagunça. Uma das poucas pessoas com quem eu me importo naquele curso tinha guardado lugar pra mim.
- Bethânia, você tá bem?
- Respirar dói - disse com os olhos quase prontos para expelir lágrimas.
Passou. Sempre passa. E, sempre volta.
Fui trabalhar após o almoço. Calor, sono, e um ônibus lotado, com um motorista que não sabe pisar no freio gradativamente. Isso me separava do Nick Belane e suas peripécias de detetive. O pior detetive de LA.
Na volta do trabalho é que tive meus últimos momentos a sós com Nick. E, tinha uma menina felizinha sentada do meu lado. Desceu numa parada perto de um cursinho pré-vestibular da elite da cidade. Era daquelas que os pais pagavam horrores para que ela pudesse entrar na faculdade. Mal ela não sabia o que a esperava por lá. Sorrisos falsos, olhares discriminadores, pessoas completamente interessadas em se aproveitar de você e sua atividade intelectual.
Cheguei na última página. Fiquei triste. Muito triste. Nick morre no final. Você morre no final. Eu morro no final. Os finais são assim. Tristeza seguida de um vazio agudo, e uma sensação de que ando assim, cheia de tudo. As pessoas não entendem o que sinto quando acabo de ler um livro com o qual me envolvi emocionalmente. A menina felizinha do cursinho não entende. Você não entende.
Com o Nick não tive medo de ver um lado que às vezes tento esconder de mim. Ele é encanto e desencanto. E é por essas e outras que sentirei tanta falta dele.
"Do lado de fora, atravessei decidido a poluição. Tinha os olhos azuis, os sapatos velhos e ninguém me amava. Mas tinha coisas a fazer. Eu era Nick Belane, detetive particular."
Nick Belane antes de cair em outra armadilha sobre pistas do Pardal Vermelho
"Desliguei. Fiquei olhando o telefone. Porra mortal. Mas a gente podia precisar em caso de emergência. Nunca se sabe.
Eu precisava de férias. Precisava de cinco mulheres. Precisava tirar a cera dos ouvidos. Precisava trocar o óleo do carro. Tinha esquecido de apresentar a porra da declaração de rendimentos. Um dos meus óculos de leitura estava com o pino quebrado. O apartamento, cheio de formiga. Precisava limpar os dentes. Os sapatos estavam gastos no salto. Eu tinha insônia. O seguro do meu carro vencera. Eu me cortava toda vez que me barbeava. Há seis anos não dava uma boa risada. Tinha tendência a me preocupar quando não havia nada com que se preocupar. E quando havia alguma preocupação real eu tomava um porre.
O telefone tocou. Peguei novamente.
- Belane? - perguntou uma voz.
- Pode ser - respondi."
Eu precisava de férias. Precisava de cinco mulheres. Precisava tirar a cera dos ouvidos. Precisava trocar o óleo do carro. Tinha esquecido de apresentar a porra da declaração de rendimentos. Um dos meus óculos de leitura estava com o pino quebrado. O apartamento, cheio de formiga. Precisava limpar os dentes. Os sapatos estavam gastos no salto. Eu tinha insônia. O seguro do meu carro vencera. Eu me cortava toda vez que me barbeava. Há seis anos não dava uma boa risada. Tinha tendência a me preocupar quando não havia nada com que se preocupar. E quando havia alguma preocupação real eu tomava um porre.
O telefone tocou. Peguei novamente.
- Belane? - perguntou uma voz.
- Pode ser - respondi."
Pulp - Bukowski [pág 150]
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